segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Ele era

Lá vinha ele.

Sabe aqueles meninos que quando chegam enchem o lugar? O cara mais simpático, mais carismático, amigo de todo mundo. Bonitão, inteligente. Do alto dos seus 15 anos já dava pra ver que ia ter sucesso na vida.

O que ninguém via era quem ele era quando deixava de ser aquilo que todos achavam que ele sempre foi.

Por dentro carregava mil angústias. Sonhos desfeitos, mágoas, preocupações. Do alto dos seus 18 anos sentia o peso da responsabilidade de ter sucesso na vida. Sentia que não podia falhar, não podia decepcionar. Era focado, quase desesperado. Não largava os livros, não podia perder tempo.

Enfim, a faculdade terminou, a vida de adulto começou. Do alto dos seus 20 e poucos anos achava que finalmente o futuro tinha começado. Continuava sendo um cara bem humorado, bem sucedido, era o orgulho da família.

O que ninguém via era quem ele era quando deitava pra dormir e podia ser só com ele mesmo.

Do alto dos seus quase 30 anos era triste e perdido. Se via na carreira errada, com os dias arrastados e desmotivados.

Uma vida toda de dedicação não havia servido pra nada. Uma vida toda criando amigos que não sabiam quem ele era.

Do alto dos seus 30 anos ainda carregava as mesmas angústias, os mesmos sonhos inacabados.

Mas o que todo mundo via era o mesmo cara bem humorado, simpático, amigo de todo mundo.

O que todo mundo via não era quem ele realmente era...

domingo, 21 de junho de 2015

Sobre a arte de não se importar

Quando foi mesmo que acabou a adolescência? Cronologicamente falando, ela acaba com quantos anos... 18? 21?

Destaque aqui para o "cronologicamente falando". Porque acho que eu nunca deixei de ser adolescente...

Outro dia me peguei pensando nisso. Por mais que eu ache que eu tenha amadurecido em muitos aspectos, algumas características da minha personalidade foram moldadas lá pelos 16, 17 anos e nunca deixaram de estar presentes.

Foi mais ou menos nessa época que eu aprendi a não baixar a guarda numa tentativa de me machucar menos. Lembro que minha ideia de "baixar a guarda" foi me tornar uma pessoa grosseira, de respostas rápidas e comentários ácidos.

Essas características me definiram por muitos anos, se não talvez até hoje. Mas, se por um lado hoje eu me sinto uma pessoa mais paciente e menos estourada, por outro eu ainda me vejo sentindo as mesmas angústias de 10 anos atrás.

Porque a verdade é que não importa o quanto você tenha mudado... muita gente sempre vai te enxergar pelos seus defeitos e deixar de lado os detalhes nos quais você tem se dedicado a melhorar. E é essa verdade que te molda e te faz ser sempre o quê você sempre foi.

Ultimamente eu tenho trabalhado muito em mim o conceito da "expectativa", quase como a Crônica do Imediato da Martha Medeiros. Depois de muita observação eu me dei conta que muita coisa que me chateia vem do fato de que eu sempre espero demais das pessoas. Isso é algo que eu tô treinando, tô me forçando a me tornar alguém que eu não sou na tentativa de quebrar menos a cara.

Se eu comecei a melhorar nisso? Acho que sim.
Se tá dando certo? Claro que não.

Às vezes fica muito claro que eu não deveria mudar em mim algo que eu não julgo ruim: "Eu mantenho minhas expectativas altas sim, e daí? Porque diabos eu tenho que pagar um preço alto por isso?"

Mas aí o bom senso vem à tona: "Você não pode esperar que os outros façam por você aquilo que você faria por eles".

É uma visão deturpada e feia da vida. Mas o mundo é triste assim.

E depois de todo esse processo de briga com o meu eu, eu me vejo voltando ao treinamento da "não-expectativa".

É uma tarefa diária e difícil de cumprir. Mas parece que cada decepção facilita o processo... cada decepção faz cair a ideia fantasiosa que existia das pessoas e ver mais claramente quem elas realmente são.

Mas ainda assim, ainda que você treine e se esforce pra não manter as expectativas altas... cada decepção é uma dorzinha lá no fundo do peito. Sabe aquela angústia dos parágrafos lá de cima? Parece que nunca passa...

E de repente, não mais que de repente, "só não ter expectativas" não basta mais. É preciso evoluir pro próximo passo ainda mais feio: a arte de não se importar.

A famosa "arte de não se importar" em teoria é muito simples: você não se importa com nada nem ninguém e não espera absolutamente nada de ninguém. Física pura e simples, Lei de Newton. Você faz de um jeito e recebe de volta do mesmo jeito.

Mas porque pra mim é tão difícil colocar isso em prática? Deve ser culpa da física que eu aprendi, que me mostrou que pra toda ação existe uma reação. E eu tenho medo (sim, MEDO) de ser uma pessoa ruim e receber coisas ruins da vida.

Só que aí eu me pergunto... eu vejo pessoas sendo ruins e elas não recebem nada ruim em troca. O Newton tava certo? O Universo conspira mesmo ao nosso favor?

Enfim... colocando agora meus questionamentos e dúvidas de lado, essa semana resolvi desativar meu facebook e deixar de seguir algumas coisas e pessoas no instagram. Foi o jeito mais infantil simples que eu encontrei de parar de ver coisas que me faziam sentir como se estivesse sendo colocada de lado.

Sim, foi uma péssima ideia. Metade dos meus aplicativos é conectado via facebook e isso complicou minha vida. Mas eu tô trabalhando o desapego e procurando alternativas.

A verdade é que, embora eu já não postasse tantas coisas nesses redes sociais, tem um lado meu que precisa se expressar e eu senti falta disso. Por isso o motivo de estar vindo aqui hoje, reativar esse blog.

Na verdade, a grande parte inicial desse texto já tinha sido escrito há mais de um ano. E quando eu reli e vi que os mesmos sentimentos ainda me assombram, entendi que me afastar do que eu julgo me fazer mal foi uma boa escolha.

As angústias eu vou ainda carregando, tentando deixar uma ou outra pelo caminho. Nesses livramentos acabam ficando também pessoas pelo caminho.

É triste, sim. Mas já que é mais difícil parar de se importar com tudo, talvez seja melhor se importar somente com quem se importa com você.

O resto... sei lá, Newton explica...